Num papel, de branco pintado,
desenhei um boneco, boneco animado,
que sorria, que crescia, era feliz.
E esse boneco, boneco animado,
um dia ficou enamorado,
e mal amado, era infeliz...
Até que um dia quis ser gente,
ganhar asas, pelos céus voar,
de estrela em estrela a saltar,
sem da lua se aproximar...
Dizem que se podia apaixonar...
Mas lá do alto, bem no firmamento,
avistou quem se perdia no tempo,
quem de amores sozinha sofria...
E o boneco, agora gente,
no seu coração a mágoa nascia,
e á terra desceu, num repente...
Aquele boneco, virou anjo de fantasia,
e ela, a princesa que sorria,
sempre, em cada novo amanhecer,
em cada olhar que os dois fez renascer...
E na tarde de sol e praia
onde a multidão é grão de areia,
talvez me perdesse,
talvez até o mar me levasse,
sem que eu te reconhecesse...
E seria tão triste o fim,
gaivotas chorando por mim,
sem que ninguém se apercebesse...
Oh tardes de verão e solidão,
oh tardes quentes, sem fim,
que seja breve o vosso reinado,
que seja longo o vosso finado,
e que outras ondas acalmem a paixão...
deixo-me levar pela tua mão,
fecho os olhos e deixo-me guiar...
em ti deposito meu coração,
esta vida, esta forma de estar,
como se nada mais existisse,
como se o mundo fosse eu e tu,
e a lua e o sol, e tudo o que nos sorrisse...
sim, amor, é nesta fantasia
que a vida vibra em cada dia,
em cada segundo, em cada acordar...
e cada convite é uma tentação,
um fim de linha, uma estação
onde se alimentam, vivem emoções,
onde os actos falam pelos corações...
e é naquele palácio por nós amado,
antro de amor, cor, de vida animado,
onde cada gemido não precisa ser reprimido,
mas antes libertado...é um grito pelo desejo sentido...
são as manhãs de sol e vida
um convite, um pedido no horizonte,
no rosto, um sorriso,
na alma, a paz do paraíso,
na mente, a esperança nunca perdida...
e abrindo as portadas da imaginação,
sentido a brisa quente do ar,
quantos sonhos de par em par,
quanta ansiedade no coração...
e é nestes momentos de magia,
em que a saudade diz "presente",
o momento passado, não está ausente,
e eu o recordo desde a noite até ser dia...
fecho os olhos e tento ouvir o mar,
o desenrolar das ondas no areal,
o sol que atrevidamente te bronzeia,
a água que te vai possuir, se fores nadar...
fim de tarde de verão,
onde o silêncio reina,
e este calor que me sufoca,
e esta ansiedade,
este nunca mais ser amanhã...
e esta necessidade de olhar em frente,
sem muros, sem tabus,
sem regras, sem segredos,
onde a vida tem vida,
sorrisos, olhares puros...
olho o céu, as estrelas,
mando recados para o firmamento,
pedidos, chamamento,
e sei que não sou ouvido...
lá fora, o calor é um tormento...
é no escuro entre quatro paredes,
onde não existem sombras, fantasmas,
que se liberta meu mundo,
mundo de fantasia, sem dor,
onde cada palavra é tocada,
baptizada, desenhada pelo amor...
no escuro, no silêncio do momento,
ensaiam-se planos, desejos,
inventam-se lugares no tempo,
onde entre abraços e beijos
os olhares se penetram, fundem,
como que atingindo o mais profundo do ser...
tento gravar, na memória pintar
cada quadro, como aguarela viva
onde as personagens ganham vida
em cada manhã, em cada fim de tarde,
em cada segundo de um pôr do sol,
em cada sorriso para a objectiva...
e no escuro entre quatro paredes,
onde não existem sombras, fantasmas,
nascem mil sonhos a viver,
revivem-se momentos de tanto querer,
como se lá fora não houvesse vida,
ou se existe, para sempre está perdida...
fazes-me falta
na tarde perdida
por entre o sol e o vento...
fazes-me falta
pelo silêncio sentido
no ruído trazido pelo tempo...
fazes-me falta
pelos beijos, abraços,
ainda vivos no pensamento...
e teu olhar, teu doce olhar,
vê lá, não o percas nesse mar,
esse olhar que é só meu,
quando o meu se perde no teu...
e na tarde perdida entre o sol e o vento,
fecho meus olhos, relembro tua voz
ainda sussurrando no tempo,
momento mágico, inventado só para nós...
Veste-se o céu de nuvens
que rápido passam...
Aqui e ali, raios de sol,
esperança de vida
numa manhã tão sem graça,
animada pela voz sussurrante,
por entre montanhas perdida,
pelo lado do mar encontrada...
E relembro as manhãs de inverno,
manhãs frias, devorando estrada,
ansiando, suplicando pela primavera,
não a primavera do tempo,
não a primavera da vida passada,
mas a primavera que é teu corpo,
florindo, de desejos asseada...
Ai meu amor de algum dia,
amor sereno, de sonho e alquimia,
um dia serás verão, após a madrugada...
Caem gotas de um orvalho intenso,
dizem que é chuva, chuva de verão,
e caminhando estrada fora,
revivem-se momentos de outra hora,
momentos vividos com emoção.
Na lembrança, o pôr do sol,
uma silhueta fitando o mar,
corpo fino, cabelos ao vento,
são emoções vivas no pensamento,
como vivido o momento de amar.
E as gotas de um orvalho intenso
não molham, não resfriam,
não apagam a minha memória,
onde folhas guardam história,
segredos, fotos que então sorriam...
E tudo faz sentido, razão de ser,
como se o destino escrevesse
passo a passo, o caminho a seguir,
encontros que na vida iriam surgir,
e fizeram que um novo dia amanhecesse...
sussurram vozes na noite
entre as estrelas e a lua,
palavras doces e belas,
ditas pelo medo, nas sombras
que se projectam nas paredes...
e ditas assim, no silêncio da noite,
quais fantasmas com alma,
ganham vida, sentimento,
porque este é o momento
que não se quer derradeiro,
ainda que no sono primeiro,
viajem as vozes no pensamento...
Lentamente se põem o sol
na tarde calma de mais um dia,
sem nuvens no além, sem vento,
sem pressas nos ponteiros do tempo,
mas onde a saudade sorria
e o coração em silêncio sofria...
As longas tardes de verão
são fascínio, viagem da imaginação,
são convites ditados pelo prazer,
sorvendo um gelado, ou bebida qualquer,
são retiros, livros para ler,
contemplação de corpo de mulher...
Lentamente se põem o sol
na tarde calma de mais um dia,
e no rosto, sente-se a brisa, fria,
chamando a noite, chamando a lua,
e passeiam namorados pela rua,
trocando carícias, mimos de alegria...
e na manhã de sol e poesia,
levo até ti um mundo de recordações,
momentos marcantes, emoções,
que só vive quem acredita em magia,
a magia que nasce nesses corações...
e lentamente viajamos no tempo,
(e está tão perto ainda o momento),
sentindo ainda o cheiro de teus cabelos,
os beijos, o amor que fizemos,
imagens sagradas de momentos belos...
e cada sonho, cada momento meu amor,
sentimos que o destino nos permite viver,
como se o amanhã, pudesse morrer,
e não nos fosse permitido ver o sol pôr,
ou passearmos abraçados numa rua qualquer.
lentamente deixo-me levar pela imaginação,
e fechando os olhos, choro de emoção,
os momentos vividos, sentidos e gritados,
são momentos reais de dois apaixonados,
que os anjos uniram em forma de conspiração...
estendo minha mão até este ecrã,
onde ninguém me vê, ninguém me ouve...
e no silêncio, imploro uma palavra,
uma letra, um meio sorriso...
e é tão pouco o que preciso....
e minha mão continua ali,
e meu olhar continua ali,
e meu ser, lentamente morre ali,
porque na noite, nesta noite, eu não te vi...