não sei onde nasce a noite, nem o vento, nem a chuva que forte cai, mas deve vir de outro mundo, sem gente, sem céu, sem lua. a noite que parou na minha rua, mete medo às gentes, aos animais que ninguém vê, porque se esconderam, em segredo...
cansei de olhar a vida com os olhos do passado, vidrados, pasmados numa ponte perdida que não une mais as duas margens... hoje, olho o sorriso da manhã, o encanto sereno das palavras por dizer mas que os olhos não sabem esconder... e assim nasce o dia, dia após dia, sem sobressaltos, apenas reboliço no mundo dos sonhos, onde tudo pode voltar a acontecer...
quanto encanto este mundo que me rodeia, com cheiro a mar, cheiro a algas na areia molhada, e cheiro a gente que apressadamente se passeia... outros correm, olhando em frente, corpos suados como fugindo do nada... do meu canto, batido pelo mar e pelos pensamentos vejo tudo em frenesim, sem contratempos porque o "fim do mundo" é já ali, qual meta de chegada até um novo dia chegar. do meu canto, curto reinado até a maré me expulsar, finjo nada ver, nada comentar, apenas observo, sorrio e não digo nada...
chegou a noite com mais um findar do dia, como chegam todas as noites, em silêncio, apenas quebrado pela sensibilidade da alma à escuridão. e com a noite, o sereno bater da chuva no telhado qual cortina esvoaçando na janela pela brisa da manhã... como lamento não sentir o cheiro da terra molhada, nem ver o fio de água que corre e se avoluma até chegar ao extenso mar... são tantas as paredes que me cercam, feitas de massas impenetráveis, ou de memórias infindáveis... são estas as paredes que me prendem e que torturam o passageiro do tempo, já sem o tempo sonhado, e no tempo há tanto tempo esquecido...
olhava o mar e sorria... seus olhos se confundiam com o azul do mar, e quanto mais sorria, mais apetecia entrar nele, barco à vela partindo para lugar nenhum, até o pôr do sol chegar ... aí, o azul do seu olhar seria só meu, como presente que não se pode partilhar...
inquieta-me o silêncio, o nascer e o findar do dia, o azul provocador do mar... intocáveis, atravessam-nos a alma, arrepiam-nos, fazem-nos sentir janelas sem vidros, livros abertos, sem segredos, sem inicio nem fim...
por mais que eu queira, os registos não falam, nada dizem sobre sentimentos, são vazios, imperfeitos, isentos de aromas... quando muito, são bizarros lamentos de tanto que ficou por dizer....
há dias que têm este condão, este querer de entrar na gente, no mais intimo do coração e fazer sofrer, a alma que muito sente...
sabes Mãe, lembro quando era pequenino, também gostei de brincar, brincadeiras de menino que eu imaginava e inventava, e lembro que era franzino, talvez por isso me isolava num espaço só meu, meu território, um castelo aberto para o céu...
havia meninos que riam, e à distância, penso até que gozavam, e tu me defendias como Mãe enorme que sempre foste... hoje, olho teu rosto, teu andar, e sei que continuas enorme, enorme no teu coração, mas mais débil se precisasses de me amparar... por isso Mãe, agora é minha vez em cada vez que o desassossego chegar, de sentires que estou a teu lado te protegendo, se preciso lutar, mesmo que a luta seja desigual... beijo-te, Mãe...
tão silenciosa e triste a manhã, o céu cinzento, e as flores tombadas pela inquietude do tempo... jazem pelo chão, inertes, agonizando, enquanto perdem a cor, sem força, sem desejo maior de esperar o sol, o seu grande amor...
já não falas da chuva nem do frio, nem dos gritos da terra ou dos lamentos do rio, por cada tempo que passa... e são tantos os tempos que já passaram, que nem demos conta... talvez a idade com o tempo deixe de saber contar, deixe de ter memória, e assim, mais fácil de perdoar quem a meio da história se esqueça do início, ou como teria sido o fim... falta pouco para tirar mais uma pétala de tantas com que a flor nasceu, e serão mais tantas quantas as vidas que o tempo te deu... fica com as pétalas... eu parto com o tempo...