quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"bom dia..."


a cada novo dia,
um novo amanhecer,
um raiar de vida,
um projecto, fazer acontecer...
sobre cada página ainda solta, vazia,
de um livro sem nome, sem história,
riscam-se palavras, sorrisos,
lembranças repescadas da memória,
sentimentos imprecisos,
o que ficou por dizer...
cada página terá de fazer nascer,
alimentar, crescer
cada ideal, desejos reprimidos,
soltar o grito para um novo amanhecer...

viagem....





faz tanto tempo que parti dessa paragem,
onde esperei o tempo, a viagem
que me levaria bem longe...
de cansaço, adormeci,
sem poder entrar, e não me apercebi
que esse tempo não mais voltava,
como não voltam mais os dias e as noites...
o espelho não me engana, nem a moldura na parede,
nem o sorriso sem o brilho de outrora.
abro a porta dos sonhos e da fantasia,
dos aromas, busco intensamente
o que não sei se vou encontrar,
como um pedinte na rua, almejando esmola,
um pão seco na sacola,
um sitio onde pernoitar...
faz tanto tempo que parti dessa paragem,
talvez em sonho.. talvez miragem...

à luz da vela...






acende-se uma vela na mesa redonda
decorada com toalha de linho,
num castiçal de ouro e safiras.
no rosto sereno, em desalinho,
teu olhar vai de encontro ao meu
buscando um sinal, um carinho
em forma de sorriso, um pedaço do céu...
tão tarde... veio tão cedo a noite,
sem luar, sem a lua no nosso caminho,
como nos poderíamos reencontrar,
ainda que na troca de olhar,
se cego ficou nosso destino??

em desassossego...






é já longa a caminhada,
passos repetidos
na íngreme calçada,
que levam à erosão dos sentidos...
e quanto mais caminho,
mais me definho
numa esperança que se desvanece
a cada segundo, ainda que numa prece,
numa oração,
peça perdão
pelo desacreditar no ontem,
no hoje e no amanhã.
tão fresca a brisa na manhã,
tão ofegante no sol do meio dia
nesta tão longa caminhada,
vazia de tudo... cheia de nada...

outono




nunca será em vão
que te procuro,
e no vazio mais escuro,
ou no clarear por entre os dedos da mão,
renasces Outono
a cada ano,
a cada fiel estação...
é ver-te assim de mil cores,
de folhas caídas pelo chão,
de lágrimas (poucas),
de apertos no coração,
que renasce a esperança
em cada rebento colorido,
em cada vaso de barro ou de latão
em forma de orquídea,
haste firme, porte sofrido,
nas noites frias, a cada novo dia...

fingimento...


amanhã é o primeiro dia

de todos os que vou fingir não te olhar...
mesmo pegando tua mão
que ao leve toque  me arrepia,
mesmo sentindo tua voz
que no silêncio da alma fala, sussurra,
eu não paro de te escutar...
mesmo sabendo-te despida de vida, fria,
amanhã é o primeiro dia,
de todos os que vou fingir não te olhar...






rio de ilusão...





rasguei um rio por entre as pedras duras
onde só havia água e sede...
tu eras a água, livre, solta e tão límpida...
eu, a sede, faminta,
tão perto de ti,
tão longe do que o corpo pede...



desenhar-te...



é noite para quem parte,
e leva no olhar a incerteza
da escuridão...
vais comigo, e cada traço de teu rosto,
cada pedaço de ti,
está gravado em minha mão...
como seria fácil te descrever num papel,
na areia límpida da praia...
não, o segredo é só meu, só meu,
e só meu olhar, o brilho desse olhar,
um dia vai segredar no teu...



tardes de outono...



meu amor, meu amor,
tão leve e suave o chamamento,
como o sol que nos beija nesta tarde de outono...
ter-te aqui, ler-te aqui,
é como respirar o ar puro da planície,
que envolve a alma,
sem ruídos, sem movimento,
apenas nós,
nesta tarde tão seca,... tão calma...



foi tão pouco...







hoje sei que não te dei tudo,
e tudo o que tinha era tão pouco...
levava-te as palavras e os sonhos,
e tu acreditavas,
e ao contar-te, também eu acreditava
como acreditava que não havia noite,
mas madrugadas sem fim.
também acreditava quando me dizias
que o fim da rua era o paraíso,
e não apenas o virar da esquina...

acreditava-mos num mundo só nosso...

sabes, hoje sei no que acredito,
nos olhares que por mim passam e nada me dizem,
nas pedras da calçada
onde tropeço a cada instante,
nas longas noites entre quatro paredes...
e por acreditar, já não há sonhos, nem palavras...
































vida...

a vida abre-se num grito a cada manhã
e corre por entre ruas, e muros e no pensamento...
tão frágil, tão doce, tão inquietante,
mas ao mesmo tempo  
se agiganta, como só os deuses do antigamente...

a vida é uma arma, uma vez escondida, esquecida,
ou talvez de leve adormecida,
até o dia em que acordes do vento
lhe tragam novas da liberdade,
da insurreição, e da voz que ganhou corpo,
se emancipou, cortou amarras...

a vida abre-se num grito a cada manhã,
vai sussurrando palavras para quem quiser ouvir,
afiar as garras se a tempestade surgir...

SOL de inverno...






são tão tristes as tardes de inverno,
cinzentas pela chuva,
pela melancolia da alma...
por isso, inventei o "SOL", ainda que de brincar,
de formato redondo, espelho ao centro
e muitos raios ao seu redor...


dependuravas na porta, onde pudesses chegar
e te olhar,
porque também eras SOL no seu esplendor,
e sempre que o vento chegava,
o "SOL" rodopiava,
e tu sorrias...


quanto mais sorrias, mais brilhavas,
fazendo esquecer as tardes frias
e as histórias que inventavas...







histórias...



são tantas as histórias
que te contei um dia,
como se fosses tu a memória
de um passado
sem presente sem futuro...
e de tanto te contar
acho até que as esqueci,
ou tudo misturo,
numa cabeça de si perdida
ou por reencontrar...