sexta-feira, 13 de setembro de 2019

fria a noite...







é tarde 
e fria a noite,
não tenho quem me acoite,
nem alma em frio leito
que me aqueça, onde me deito...

apaguem-se as estrelas
e o luar que me persegue,
estou só, e de tão leve,
que me leve a brisa em manto frio,
e  me deixe nos braços d`algum rio.

estou só e a imagem de ti...
pior, invento-te em cada lugar
qual pedra esculpida pelo meu olhar!
foge, foge para o fim do mundo,
paz, quero paz, ainda que por um segundo...



porque brilha uma Estrela...







os homens têm o dom da criação,
e como tal, inventaram um dia especial
de luzes, cor, movimento,
montras de tudo e de nada, de ilusão,
e no calendário, baptizado de "Natal"...
as crianças riem e choram,
zangam-se ou imploram
por aquele brinquedo tão banal l!!
lá no alto, no firmamento,
aquela Estrela, luz brilhando,
ou talvez chorando
lágrimas de sangue ou de sal,
por tanto reboliço na cidade...
Eu? inquieto-me e escondo a verdade...
também fui corrompido,
e no burburinho perdido,
neste mundo tão vazio, tão material...





entardecer...







já não sei buscar
as palavras,
escrever frases soltas,
que animam o caderno da vida
no pensamento...
estendo o tapete
onde deambulam teus passos,
leves, soltos, sim...soltos,
que te podem levar ao infinito.
serenamente, aguardo.
e  confunde-se dentro de mim
o amanhã...



no palco do mundo...







na sala quase vazia de visitas,
o murmurinho, a excitação
pelas palavras que serão ditas...
será sentença, será sermão,
ou tão só frases sem sentido...??

ri-se o narrador... insensata a plateia
que ousou pensar, libertando ondas de ruído
num rio calmo, espelho de água em lua cheia
onde só os incautos se rendem, se deixam prender
na aparente beleza, que só a lua sabe conceber

olha a sala mais uma vez, pela última vez...
olhares cabisbaixos, perdidos no tempo,
desilusão correndo o pensamento,
e eu tão só, no palco do mundo da sensatez...









o passar do tempo...







aprendi a contar pelos dedos,
coisas de menino, de inocente,
talvez assim chegasse a gente
e afastasse de mim todos os medos...

quanto mais contava,
mais os anos passavam,
e meus dedos já não chegavam
para conta tão elevada...

agora reparo em tanto calendário rasgado,
em datas que não vou mais lembrar,
em velas que ficaram por apagar,
nas rotinas diárias que já são passado...

num ápice, num fugaz pensamento,
um filme, mil retratos de nós,
os amigos, família, momentos a sós,
quase tudo levado pelo vento...

quarenta anos, quarenta vidas,
muitos, por certo de ilusões,
quantos sonhos, quantas emoções,
e no final, um palco... as despedidas...





faz tempo, tanto tempo...








faz tempo, tanto tempo,
que o destino era o norte,
correria louca,
coração batendo forte
para os braços do aconchego...
faz tempo, tanto tempo,
que de tão distante
se perdeu o horizonte,
os trilhos, os cheiros,
o riso contagiante
que agora sondo nas asas do vento
e tu tempo que não voltas atrás
que de mim levaste as memórias
todas as recordações,
tem dó, devolve-me a paz
num livro de contos, de histórias....



cantos do mar...








há um chamamento,
um convite, uma fixação,
sempre que por ti passo, mar...
e são tantas as vezes,
tantas, que seriam de perdição
se nos teu encantos me deixasse levar...
vejo as vestes negras
das mulheres contemplando o horizonte,
triste sina, triste dor
de quem perdeu, quem o mar levou...
não me chames, mar,
por mim espera, quem sempre me amou...




quando o dia se vai





quando o dia se vai
e cai a noite,
entre as paredes do quarto, o silêncio,
e tu, o teu momento
de entrega,
de agradecimento
por mais um dia...
recolhes-te em teu corpo indefeso
e entre murmúrio de palavras,
fecharás os olhos,
sem dares por nada,
e quando acordares,
ainda que de madrugada,
sorrirás,
"obrigado por cuidares de mim,
ajuda-me em nova jornada.."







sonho de menino...





era uma vez um menino
dócil, de aspecto frágil,
das palavras fugidio,
de coração em nada traquino,
era apenas um menino...
e como todos os meninos, sonha,
lê as estrelas e fala com a lua...
seu quarto é seu mundo
e sua cama sua rua,
rua de gentes, de tempestade e de bonança,
onde ele vê o que mais ninguém vê...
e o menino cresce, no olhar e no querer,
no saber ouvir, entender
que o seu mundo, não é igual ao de muita gente,
e se questiona, se revolta,
se preciso, se machuca.. nada tem a perder...
correm os dias, ano após ano,
subimos o palco da vida, corre-se o pano,
uns batem palmas, outros fingem não ver,
no final, a consolação, a paz d`alma
de quem foi dócil até um dia... até crescer,
que soube ouvir, ousou falar sem medo...sem nada a perder...



manhãs de nevoeiro









não sinto o cheiro, os aromas

das manhãs de outono,

tão frias, cobertas por este manto de dor,

vagueando por aí, sem dono...

nevoeiro perdido, cobrindo tudo em redor,

acolhe-me em teu regaço,

embala-me em tua teia

tão frágil, qual gota de água

perdida num rio, procurando seu espaço...

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"à flor da pele"







é através da vidraça que nasce teu sorriso,
tão leve e tão preciso,
como se destinado só para alguém...
prefiro entrar, mãos nas mãos
num cumprimento que vai mais além...
sente-se, quase carnal o momento!!
talvez as veias se fundissem,
se a pele não teimasse em resistir...

talvez amanhã seja o fim
de um sonho lindo, que de tão lindo,
continua adormecido,
eternamente adormecido...





"os teus caracois"...









não sei falar dos caracóis nos teus cabelos,
que não vi nascer
nem ousei um dia contar...
cada fio que morrer
na tua escova ao pentear,
terá uma história
do dia que esvoaçando ao vento,
era liso, corria por entre os dedos,
tão fácil, sem segredos
de memórias perdidas no tempo...
confesso...ao ver-te assim,
sorrio, e escondo meus medos...





sem história...







há dias que não são dias,
mas tão só deixar correr o tempo,
sem horas, sem pressa...
ontem... ontem foi o momento,
o delírio, uma promessa
que se esfumou,
um sorriso gravado, ou um esboço,
e o amanhã... amanhã não existe,
talvez apenas no sonho de uma criança.
faz-se tarde, noite, retrospectiva sem história,
há dias assim, que não são dias,
não são tema que ocupe nossa memória...