terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

naufrágio...




abres teus braços,
como se abraços 
de amor..
incautos, meus passos
em silêncio, descalços,
seguem-te de cor.
curta a caminhada nos espaços...
solta, vincada, tons baços
é a tua pele, agora trajando dor...
sim, porque esses abraços,
são apenas laços
para um naufrágio maior...


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ondas de ti...


são tuas vestes, as ondas
que a brisa faz baloiçar
em cada movimento teu.

em cada onda, repousa meu olhar,
meu pensamento, baloiçando num barco
sem remos, apenas navegar.

sigo viagem, mera miragem
nas ondas que são teu corpo
e meus desejos em libertinagem...

espera... despe-te de ti,
despe-te dos rios ansiando meu mar...
tanta praia, tanto areal por aqui...



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

boa noite...



eram de longe as pétalas das rosas
que a brisa suavemente me entregava.
perfumadas, aveludadas,
cada qual tinha sua cor
e cada uma seu recado de amor.

eram de longe os beijos da manhã,
o acordar de leve como o deslizar do rio
tocando solenemente nosso corpo,
e cada beijo, uma melodia,
uma história, um hino à alegria.

eram de longe os feiticeiros,
os artífices do medo e da penúria
que padecem pelos desencontros no tempo,
e o tempo, a sua capacidade de renovação,
tudo altera, até o que não mais tem solução...




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

como um alvo...




como um alvo,
cada lança apontada ao centro
é um martírio, um lento sofrer
até que chegue o momento final...

com a suavidade da esperança,
lentamente se retira cada lança,
cada mágoa, e se tentam curar feridas
por entre lágrimas sofridas.

com os olhos martirizados, vidrados,
com os braços pendentes de cansaço,
deixa-se cair o guerreiro, sentindo falta do abraço
à tanto tempo prometido, e prematuramente roubado...



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"dorme bem"



sem vacilar, em breve escrita,
saem das mãos o adeus, 
o silêncio em forma de palavras...
"dorme bem"...

como se do desejo em forma de ritual,
os sonhos e os pesadelos evaporassem
e deixassem o corpo levitar,
tal e qual uma pena de ave no ar...

a custo, relê a mensagem... "dorme bem"...
aperta-se o coração, os lábios
pelo mundo que ficou lá fora...
acorda manhã... chegou minha hora...




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

eram jovens...


eram jovens, amantes,
e corriam como as águas de Abril,
viviam como as estrelas no céu,
e sorriam como o sol no verão.

cada dia era como se fosse o amanhã
e o ontem já não existisse,
era como se o hoje fosse o amanhecer
do tanto que haveria a viver...

entre cada abraço, cada beijo,
um olhar, palpitação, desejo,
desconcerto com o relógio que não pára
nas manhãs de cada estação...

eram jovens e amantes
como as raízes das árvores frondosas,
entrelaçadas, vigorosas,
mas tão frágeis nas tempestades errantes...



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

faz-se tarde...


faz-se tarde...

pudera eu lançar a rede
e pescar todos os medos
espalhados nas veias,
todos os enredos
que me sufocam...

soltar-me dos grilhões
de todas as prisões,
romper todas as teias,
as agruras  que me tocam...

pudera eu ser mar,
ondas de rebentação
onde nada sobrasse,
nem do pensamento
nem do sonhar.

pudera eu ser infinito,
pedra, metal nobre,
um puzzle, um labirinto,
ou simplesmente o céu, que cobre
os pobres de espírito...


sábado, 1 de fevereiro de 2014

chegaste, noite...



chegaste, noite... ainda é tão cedo...

o livro ainda inacabado sobre a mesa,
os registos espalhados, alguns caídos pelo chão,
se alguém lhes toca, os lê, vão lá entender
as palavras do coração...

mas tu noite, és testemunha do querer,
quando na tua companhia, olhando o céu,
fazia versos à lua, e só ela me respondia
com o luar que só os amantes sabem ler...

chegaste noite... falta muito para ser dia?




sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

primavera...




anseiam meus olhos pela luz da primavera,
pelas manhãs febris do retorno à vida...

deambulando pelos verdes prados
serei feliz como os lírios do campo,
que na sua simplicidade, têm tanto encanto
e sorriem para quem passa, como que enamorados...

anseia meu ser pela renovação, 
pela arte do querer, pela boa estrela, algures perdida...



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

mundo à parte...


apenas um fio
como se de teia
fosse,
me segura no vazio,
sem a sorte que premeia
os audazes...

caiu a noite,
o silêncio...
shiu, lá fora chove
e o coração não ouve...
coitado, ainda a sonhar
com os acordes de outrora...

acorda, vê a hora!
por onde andavas??
quem procuravas
já não mora
ali, dizem que se escondeu
num mundo que inventou... e lá morreu...




domingo, 26 de janeiro de 2014

tarde de inverno...



tarde de inverno e desassossego,
tarde de domingo onde me prendo
ouvindo a chuva cair...
não se ouve um bater de asas,
um cão a latir,
tudo permanece quedo
mas eu sei que é tudo a fingir,
não vão acordar os fantasmas do medo.

se não fosse esta chuva, este enredo,
juro que inventaria asas de voar,
um caminho, um só sentido,
um paraíso, um abraço ao chegar,
um beijo (ainda que proibido),
mil histórias para contar
e acrescentar, num livro interrompido...






sábado, 25 de janeiro de 2014

horas mortas...



são de angústia as horas mortas,
partilhadas pelo silêncio e pela luz,
saltando uma após outra, triste cruz,
até que se canse o olhar...

até o mar, outrora em ruidosos brados,
permanece calmo, silencioso,
talvez se culpando, ou se sinta medroso
das forças que regem o universo

como o mar, meus medos me tomaram,
me tornaram seu refém
no pensamento agora sem dono, sem ninguém,
nas horas mortas, neste silêncio sem fim...



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

em modo de destilação...



destilo todo o veneno que mora em mim
por entre as sarjetas das ruas desertas...
limpo, de coração puro, olho as estrelas
e até reparo que nunca brilharam assim,
e aos meus olhos ficaram ainda mais belas...